Sexta-feira, Fevereiro 24, 2012

O culto


Alguém aí ó...
Conhece mesmo Baco?
Forjado na barriga de uma perna
É certo que ele precisa perambular
Andar pela arte do suco
Quem sabe vagar louco em sua garrafa...

Alguém aí ó...
Percebe a deriva
Ou as vinhas crescendo
Envolvendo
Pescoços e narinas
Tristes pelo toque do ouro?

Alguém aí ó...
Por agentes tóxicos observaria
Dionisio em Baco
Baco em Leão
Impedindo que invadam o céu
Impedindo em verdade que a musica deixasse seu rito?

Alguém aí ó...
Sentou cruzando as pernas
Observando mesmo que no rabo dos olhos
Essa tetralogia de máscaras
Essas três tragédias e uma sátira
Esse esboço em traços sujos esculpindo o suave e o embriagador?

Alguém aí ó...
Conhece o "aquele das árvores"
O "aquele que faz trovejar"
O "aquele que grita alto"
"o libertador" pela bebida divinal,
Por suaves goles de existência... (?)

Alguém aí ó...
Saiba que o leão tende a ser lenda
O aroma exala como brilha o sol
O sabor macio erradica inibições
E mesmo histórico ou mitológico
                                                                             pelo passado
Dionisio fatalmente entorna-se Baco.

CAPITULO 02 – O CHEIO

passo
convite passo
atordoado passa-
do portão
anda
sem rumo anda
passo pé pós pé passo
paralelepípedo
para olhar
ver o redor
contorno
entorno
adorno
do ventre verde vasto de árvores
vaga
com raios de sol
permeando
as folhas
secas nos passos secos
se costura a colcha que cala
caminhando casto cigano
paira o cheiro perene
encanto canto das asas
onde o perfume sobrevoa ecoa
no corpo que treme e atordoa
pela busca idéia ainda rasa

segue o cego percurso
por um peito vasto intruso
de um caminho pelo tato
feito vapor mais que barato
sela um acordo cavalgar
no seu lugar feito por baixo
sendo mesmo um confuso
tenta teimando um tato tentar
parabolizando rasgas imagens
como voláteis calcitas
efervescentes pelos olhos
onde a salgada solidão que escorre sente
mais que nu
mais que encontrado desencontro
que deságua
sob o amparo das imensas árvores
no balanço primaveril de palavras que dançam
sem precisar dizer

todo choro é uma deixa
na tristeza da garoa sobre a terra
no suor que transborda pela roupa
numa noite quente
numa janela aberta
feito contato desesperado imantado velado
provocando explodir
ex)plode(tra-vasa
estanca a saliva dos gritos
expulsa por meio do choro
o que é chorume

o andar não se contém
não se contém quando a rua é desejo
e o desejo da rua
é a rua que deseja o passo
passa passear
na cidade ruas calçadas
a calçada de uma dessas ruas
pelas ruas dessas calçadas
onde tantos vem
vão por elas
sobre
entre
os vazios de largos
passos
eretos curvados apressados
vagando
perambulando
o tempo apressado
o tempo da fila
do sinal
da chegada do trabalho
engarrafada
pressurizada nas quadras
no período intemperado que dura
o momento absorvente de chegar
de chegar
de chegar
de estrangular o sinônimo
de comprimir o ponteiro
e quem sabe constranger o tempo
a uma hora e quarenta e cinco minutos
do atingir
da imbecilidade cretina
solitária
sobre quatro rodas
que mais param do que rodam
que mais rodam do que enxergam
do que descobrem
nos seus sessenta meses de taxas e juros
acumulados
enclausurados no ar
condicionados a paixão de estar ébrio volante

o menino enxerga
o homem do tempo calcula
o mundo atrás da mesa
mas atrás da mesa o mundo tem no pequeno
nos curtos passos de um tempo franzino
os saltos trépidos de uma estrela
em sua hora
em seu banho sul-americano
desnorteado nas pedras líricas
no concreto intempérico
cinza da mesma natureza
biótipo ótico de cidade
onde entrevê a frente
feito toda nuvem cinza
um arco-celeste que convida o farol
busca um foco
a saída de um avesso
um apenas
para estender o interior
como o sopro de uma canção
que perto dos ouvidos
deles desvenda
o particular
o infinito
a deixa imortal que segue
por dentro
numa luz pendente de razão
tão imensa
que é sonho
e é concreto

como é concreto
é loucura
e por assim dizer imagina
o mundo dessas coisas
minúsculas
grandiosas
relacionadas ao campo
vasto
humano
de um com outro
do um com muitos outros
dos muitos
com suas protegidas reservas
das mesmas coisas
que divergem a todos
sonhadas por todos
guardadas
em seus muros
a cadear devaneios e os olhares
na falta de chita
num quando se é criança
delírio diferente
como o olhar diante isso
feito problema menor no instante
onde a cada momento surge algo
mais além
para o que é visto na cidade
e a cidade é o homem
o menino que sonha na cidade
além das árvores
onde a luz peneirada tocava sem reflexos
aqui há mais do homem
onde se fala concreto
e a cidade convida
o menino

no homem
melhor dizer, na cidade
todo tempo é curto
para um intruso é assim
este é convidado
pára o tempo
segue feito vento
que não precisa chegar
ao lugar que tem altos
tão altos quanto baixos
baixos pequenos
fechados
ilhas
inúmeras delas
de calor
e derivas
ilhas donde brotam tanto flores no asfalto
quanto jardins suspensos invisíveis
não a todos
depende do morro
ou da maneira que se escolhe morrer
sobreviver
sobre o viver
dos muitos homens
das muitas cidades
onde a taxa desses meninos não se calcula
e menos se calcula ver
o ver entre o abarrotado
meiando as calçadas
as janelas
quartos casas apartamentos
vielas que para vê-las
só incidente
na trombada do nariz que passa empinado
ou apinhado
no peso de andar para o chão
onde só se vê o chão
e sua sucessão compassada
 de passos
martelando as pedras
as flores do asfalto
que apenas podem se ver
ouvir
com olhos altos e acriançados
com as vozes pelos lados
e os olhares calados que também precisam ver
o tudo mais que um amontoado
de carros casas e horários
onde o complexo demográfico estende às mãos
e é possível o toque
é possível descomplexar
é possível enxergar através da intransparência
do concreto
é possível
do homem
é possível
do peito
é possível....
o vento e as janelas abertas
sob o sol do meio dia
o balanço das cortinas
dos galhos das folhas
da sombra sobre o suor
que escorre pelas ruas e avenidas
sob os pontilhões
ainda mais
debaixo das pontes
nas caixas de papelão
nas casas de papelão
neste incontável papelão
de pontes e casas sem teto
sem tento
sem tinto
engorovinhados na paisagem
na passagem
no meio urbano entrópico e derradeiro
de baratas e ratos funkiando
a oscilação permanente da parte mais central
onde tudo nasceu
onde também as coisas não mudam e não são as mesmas
no centro
no núcleo
no meio
ou não
da cidade
suas pedras portuguesas
seus casarões
em lojas
em cores
em cinzas escondidos
além dos outdoores
onde o comércio vive ainda
quem sabe (?)
um saudosismo
é mesmo ali, um tanto grande
do antes
do percorrer
o cruzar inumerável de pessoas
ruas de formigas
e tamanduás sem bandeira
cada um por si e deus...
deus(?)
deus é falado
num provável diário pelas esquinas
na boca de um lobo qualquer
que apenas escoa a chuva ácida
dos olhares
dos rabos de olhos
que miram louco o pobre diabo
a pregar-se
sob a sensação térmica em terno e gravata
bem ali
ao lado dos piratas três por dez
chorando... quatro
sorrindo... em garantia

o centro não é escolha
para muitos homens
a opção que se tem
       o meio
que se tem
de trabalho ou casa
casa(?) com o trabalho
mas o trabalho de morar no centro
não é lá dos grandes
grande mesmo é a quantidade de lixo
papéis papeizinhos garrafa latinha bagaço bagunça
nas ruas e calçadas
uma quantidade inimaginável a se jogar
num período histórico de coisas descartáveis
onde parece ser descartável até o que não é
como os olhares, os sorrisos
ou mesmo o sol e a chuva
a garoa inversamente proporcional
ao abafado miolo da cidade
com suas poeiras e poluentes
nos gases descartando o azul
o ozônio
e por isso o sol
que desaparece num cinza xerox dessas ruas
ou vem escarrando suas farpas de luz
na pele no lombo
de quem não tem fator ou fatos de proteção
assim a cidade é mais que o meio
que o meio
o veículo
o organismo
transcendendo calor e garoas
sempre com seus sinais
a quem acredita poder fugir
dos tentáculos que abraçam a noite e o dia
as horas do sono e insônia
do bocejo
ou dos olhos vidrados nos automóveis e vitrines
sonhando canções interrompidas pelo tráfego
congestionado
aéreo
o trafego das motocicletas
que extrapolam os limites dessa colcha
e descarregam seus escárnios pelos retrovisores
pelas buzinas
e nos pronto-socorros escangalhados
tão quanto os que chegam
os que ficam
e não saem
do sonho canto pau-de-arara
que voasse o retorno para a terra permeável
que embora seca
tem seu gosto
seu cheiro
donde mesmo das trincas nascem olhos
bocas
e mãos mais iguais umas das outras
pois as mãos na cidade são distantes
encardidas cascudas ou macias
nos seus apertos e abraços
ausentes por saber que não serão as mesmas
mãos do amanhã

a cidade em si
tem seriedade com o pequeno garoto perdido
(mas essas visões me fazem parecer tão cruel
nem todos vivem da comida dos outros)
É preciso vê-los?
é preciso um teatro sem cortinas
ver que o menino tenta alcançá-las
retirá-las
Mas o que se ouviu?
a chuva forte
Os freios do vento?
arrepiando as altas janelas
percorrendo a lost highway
para ter uma mente satisfeita
para se envolver no cobertor
para saber
que a mente satisfeita de um homem
tem sua sesta na velhice
e acorda ainda jovem
mesmo na poeira de estátuas perdidas
pois deve haver alguma saída
um alívio, um gole do próprio vinho quem sabe
quem sabe
pelas torres os sinais espalhem uma parte disso
como gatos de favela
ou feito uma simples luz
mostrando... mesmo que do oeste para o leste
passos mais juntos longe desta multidão só
vagarosamente
para que o menino seja libertado
Quem estará pronto?
na manhã escutam o silêncio das coisas perdidas
da poeira que descansa debaixo dos móveis brilhantes
procurando um porque louco e apaixonado
com seu lápis na mão
imaginan-do que se trata e acontece
com os olhos fora da bolsa
pelas folhas brancas
socorrendo a primavera estampada nas paredes
e a resposta esta borboleando com o sopro
cavalgando pela trilha do andante
que caiu sonhando na metade do caminho
na conversa com o mundo lá fora
faminto pelo preto e pelo branco
pelo caleidoscópio
e pela vida que pudesse ser daquele modo
na falta ou simetria multicor e variável
da bela forma de olhar
possuir o além mar
velejar nas horas mais escuras
para sentir-se em casa novamente
Algo que se possa ter de volta?
no cuidado com as tempestades
e no transcender de baldes e fumaças
para que o ritmo esteja a tempo
com fachadas rentes aos tijolos
e o cheiro da terra seja como antes da chuva
mas são poucos que arriscam
Como o rio para o mar?
no toque da meia noite
derretendo na fornalha inesperada
a gentil e desdobrada liberdade
além dos brises e cortinas
com janelas norteadas num calor específico
e ainda que paradas
contam o avesso seguro em medidas áureas
para não sentir-se preso
ou encarado pela ave que não assovia
e ainda assim põe seus ovos dia a dia

Devo isso?
mesmo no caminho
as pedras rolam como as cabeças
e persistem
nas camadas do solo
trazendo das montanhas a visão do alto
assustando o levantar-se
o construir
a velocidade dos cartões postais
e das filas dobrando a esquina

Como enxergar?
ao ver o sol da meia noite com suas placas luminosas
a circunstância é a voz do recado
nem toda rua encalha o nascer do dia
mas para a cidade
mudar de idéia é apenas escolher outro caminho
e persistir encravado em seus delírios
onde o diálogo se faz subindo a torta montanha
para quem ao descer a serra
consiga dançar nas curvas
para além dos próprios quadris
e possa ao fim mergulhar de cabeça
inabalável
pelo vai e vem das ondas verdes nas avenidas
desmembrando os degraus dos sentimentos
que fazem das pontes mais que passagens
e dos edifícios mais que meras muletas
de tetos empoleirados como arquibancadas
assistindo as trevas do dia
e o brilho da noite
neste trem passageiro
de estações como agulhas perdidas
pela casa de altas apostas
no penhor de furacões e travesseiros
ou no salão superior
onde ouvem-se o ressoar do tiros
aos três corpos sempre deitados
que morrem todos os dias pelas preces
pelos guetos e acostamentos
onde o júri sempre concorda
na fabrica dos piores dias futuros
ou nas gaiolas de um inferno vivo

Mas o que é isso?
os efeitos são causas prováveis
nenhuma lixadeira apagará essas sentenças
a cidade não apela pela tréplica
seus votos são antigos
retirantes para a terra prometida
pois ao estourar vitrines
o homem espelha essa idéia
e o pobre menino de colarinho esganiçado
vive o grito com timbre livre
sobre a distância tão próxima
de viver ou deixar-se todos os dias

Eu serei libertado?
as lâmpadas de mercúrio permitem mais
existem bueiros demais e poucos riachos
e se a luz conhece a resposta
andar cabisbaixo já não é mais tão seguro
encarar não é uma maneira
é o suspiro e o salto profundamente adormecido
quando todos os pais se vão
não importa mais o medo
quando tudo for esquecido
isto deve ser lembrado
soprando das ruas traseiras
onde as bocas sorrisam para que o pagamento seja rápido
e não seja a fome nem o medo que afrouxe suas calças

A cidade é inumana?
o homem é a cidade
o menino continua
a árvore sonhadora mantém-se verde
o leão esconde-se verde do rugido dos motores
a própria loucura rege lombadas eletrônicas
momentos de sanidade
a sorte é desumana
a cidade tem suas portas e janelas
o céu é parte paisagem
o homem é o traçado
o menino
um ponto de fuga

Como em certas ruas e suas quietudes?
esperançosamente verdes
com seus despertares anti-monocromáticos
e algo além da calmaria encorajando a existência
dessas extintas ruazinhas
que esperam pelos raios entardecidos e rosados
prometendo gotas de orvalho
no recolher das horas desesperadas dos pássaros urbanos
a causar arrepios no cheiro
e no gosto alternado nos quarteirões

também nas que sem saída
são ruas de fuga
e mais protegem do abismo das avenidas sem fim
com o fechar dos olhos
para quem sabe se ver
no brilho
para além dos faróis
onde o lugar encontrado se faz seu
e algo maior parece amanhecer com a cidade

algo maior surge nas praças
mesmo sobre o dia abafado e as pedras humanizadas
que se dissolvem através dos becos
do sobe desce ladeira
onde o mundo roda num tanto faz tanto
mas segue a frente
por cima
ao descobrir que os rumos mudam e tudo diminui
diante o tempo infinito de fazer-se parte
de estar além da causa
e sentar-se com o bem atemporal
pelos bancos não mais vistos nas calçadas

ou nas praças
que de praças tem as árvores
   poucas

e moitas para além do joelhos
   muitas


Na cidade. Na cama. No elevador.

nos grãos de areia e café instantâneo
no vento que rodopia os papéis pelas ruas
na mistura do açúcar
                                   na descarga

nos olhos hipnotizados dos pedestres
no gira-gira intergaláctico dessas partículas
estaticamente verbalizadas no vermelho
                                                                       freio

farol bombeiro sangue
                                               sugado

suado disperso
mas ainda assim... Sonho
líric-a-mente quantificado
para sentir-se cidade
com olhos e pernas

                                 ouvi-la
com seus pombos e pernilongos
a sentir o odor urbano do dia e da noite
nas madrugadas que abrem as avenidas
roletando os semáforos orgulhosos
longe, muito além, do trem

(não vai nem vem)

dos infinitos vagões
do seguir
                continuo
                                do ferro
                (não vai nem vem)
                                dormente
                azinhavre
                ferrugem
pelas tardes quentes alaranjadas
                                                       perdidas

não vai nem vem
não vai
nem vem
                não vai
                nem vem
não vai
                nem vem
nem vem nem vem nem vem
                                                  piuííí-piiiiiuíííííííííííí
                                                  mais que um abacaxi                          
           estacionado pela tarde
           filando a tarde
tão tarde que tarda
anoitece
e as avenidas são as mesmas
a cidade é a mesma
o stress
           vai e vem
o trem
           não vai nem vem
e não volta ao PIIIAUÍÍÍÍÍÍÍÍ

anoiteceu
                não com o sol
se pondo
                anoiteceu mais rente
mais filho
                no seio caiado da lua
                se descompondo
                                       para que mais possa compor
anoiteceu
                nos olhos
                nas lâmpadas
                                      dos quartos
                nos infartos
                nos letreiros
na rua
rua que nasci
                    escureceu
muito mais
além da luz
                    além do claro se perdeu
naquela rua
com seu tempo de areia
                                de pés descalços
                                sem calçadas

onde o quarteirão era o tamanho da cidade
e o adeus voltava sempre
                                           dizia:
                                                     “-Oi, eu já cheguei!”
entrava pela casa com o cheiro das caldeiras
                                                      dos bichos de seda
ainda assim sorria
como o melhor doce da infância
                                                      e o gosto do abraço
me abraçava com o mundo
                                            e o mundo era grande como mãe
o mundo era redondo
                                   era girassol, gira-lua, dentro da noite e do dia
onde meu pai corria como eu
e eu sonhava correr como ele
                                                  lá na minha rua
onde as crianças eram iguais
e mais iguais sorrisavam
com as brincadeiras
com as meninas
com as tardes
com a corda
com a bola
e as noites
                  escureciam com os pés na areia
                 até a hora do banho e das agulhas
                              dos bichos de pé
                                                           e o sangue era groselha

O amanhã?
                depois da aula era tudo
                                                          outra vez
com a groselha
na selva dos jardins                                   das casas                                         
com os bonecos minúsculos         heróis
cavando a terra impregnada nas unhas
que desfaziam-se nas mangueiras
na molhadeira persistente
dos esguichos e bolas
de água e bexiga
alucinados

era pouco
que tinha
o pouco
acabou
             lá na minha rua
             nada mais é meu
             nem as tardes são
             a noite minha não é
             e o quarto que era meu
             quem sabe sonhe comigo
                                                           como eu sonho com aquela árvore
                                                           com aquele velho amigo
                                                           como eu ali vivia
                                                           com a noite
                                                           ou com
                                                           o dia
                                                           lá
                                       na minha
                                                       rua
                               que de meu não era
                                                              nada
                         pois a rua não era rua minha
                                                               eu era dela
                                                     todo mundo era dela
         o mundo todo
    cabia naquela fração
naquele imenso quarteirão
    com seus muitos azuis além
                                                      daquele céu de aquarelas
              além da chuva que só vinha depois do cheiro
                                                              apagando o giz
                                                                   os gritos
                     para quietos roubar tantos ovos
                        para quantos muros fossem
                              e assim quem sabe
                                  socorrer o fim
                                     das tardes
                                          de sol
nessas crenças
que vinham
dos pais
dos pais
simpatias
que víamos
e jurávamos
fazer dar certo..................................................................... e davam
mesmo que o certo......................................................... desse errado
ou que muita água corresse           ........................................ brincávamos
corríamos e dançávamos com ela..................... com barquinhos
                                                              dos papéis das provas
                                                ou seja lá o que nos fizesse
                                     velejar até a boca dos bueiros
                   que mais pareciam abismos escuros
       onde sumiam as bolas e os barcos
para que muitos outros pudessem
      no tempo de outras dobras
            desdobrar essas histórias................................... que
                               agora me trazem .......... aqueles dias
                                                          lá... da minha rua
                                           minha?
  não foi apenas uma rua que passou pelo gosto da infância
    quando se é criança parece que as coisas nunca mudam
                                   mas mudar de rua
     é como sentar-se para uma história que não terminam
         ou como não poder ficar até o fim de uma festa
                            mudar de casa não é nada
                   o problema mesmo é a rua que muda
                       aí tudo vai mudando com tudo
                    o sol muda quando o campo muda
                          muda a lua e o esconderijo
                               cadê a casa na árvore?
                 só quem teve uma é que sabe da noite
                                   do uivo do vento
                                       ...balança...
            e faz qualquer um ver vampiro e lobisomem
                                         balança
                                         não cai
mas fica para traz e se perde com a infância que ficava naquela
                                             rua
                                               lá
onde as coisas mudaram

o pensamento
o corpo
o olhar
os passos
as pessoas
aí tudo vira
a vida se atira
o sonho se revira
fica tudo mais estranho
cada dedo parece de um tamanho
cada gota que escorre salga mais o que é doido
                                                                                  dói o peito o juízo
e aquilo tudo que nunca se mudava
                                                              agora muda e parece  prejuízo
e de tanto transformar
                                        vem o homem e se vai a infância sem aviso
fica o menino
                        nalgum canto...  para que saia algum dia deste pranto
indeciso
que agora é homem
produto
substância
resultado
e pode o homem ainda ser
se quiser ser
através da carne
da pose
da altura
da pequenez de homem
ser menino
ser gigante
e abraçar novamente
o mundo
fazer-se parte
pode o homem ainda brincar
                                                 sentir o cheiro
                                                 o gosto
                                aliviar-se
                                na chuva
                                na tarde
e fazer também sua
a rua
que hoje vive
e viver
não só a rua
a cidade
para ultravida do desvendar
como faróis noturnos descobrindo a estrada
e ainda sim
seguir
rumo ao traçado atraente da vida
no velho coração de menino
que não descolore
pois inventa cor
concebe o passo
idealiza a chegada
e arquiteta suas portas e janelas
para quantos mundos venha o menino descobrir.